sexta-feira, 18 de maio de 2018

a dor do amor

Talvez já tenha escrito sobre isto. É que ser mãe custa. Dói. Hoje deixei a minha filha na escola com umas mini-meias do ano passado. E cheguei ao trabalho a pensar nisso. Quando lhas calcei parecia que estava tudo bem. Mas quando calcei os ténis e saímos de casa fiquei na dúvida. Na escola percebi que, afinal, já estão curtas. Não no pé, mas na perna. E os ténis ficam em contacto com a pele. E dói-me pensar que pode fazer ferida. E ela nem é nada comichosa. Pelo contrário. Rija que dói e não se queixa e não pára quieta por uma dor. Mas estão a perceber o ridículo disto? O ridículo todos percebem. Agora a dor, deduzo que só quem realmente entrou nesta vida da paternidade. É muito esquisito. Há um sofrimento constante. Ou então sou eu. Sofre-se com medo das meias. Sofre-se com medo de que a educação não esteja a ser a mais correta. Sofre-se com a decisão de mudar ou não de escola. E só tem 3 anos. Mas adora a educadora. De paixão. E custa-me separá-las. Portanto, ainda não decidi. Depois dói quando ela quer o pai e não me quer a mim. Mesmo que sejam cinco minutos. E mesmo que dê muito jeito. Dói quando cedemos. Dói quando contrariamos. No fundo não são dores de verdade. Físicas. São muitas questões. São inseguranças. Duvidamos de nós. Mesmo que tenhamos certezas. Mas duvidamos. É o medo de não estar a fazer bem. É o medo de não dar certo. São as birras dos 3 anos. São respostas na ponta da língua. E contra-respostas. E argumentos. É alguém que está a deixar de ser bebé. Que cresce. E que é traquina. Atrevida. Irrequieta. Mandona. E que nos desafia muito. Depois é a chucha que ela adora. É a maminha que ainda gosta. Tantas e tantas coisas. Depois há momentos em que ela não obedece. Depois há quem nos diga que tem de deixar a chucha. Tantas e tantas coisas. E tu não ligas. Tu sabes e sempre soubeste o que querias. Mas mesmo assim, duvidas. Questionas. E às vezes sentes-te perdida. Às vezes tens atitudes que não queres. Depois lês cada vez mais coisas sobre o tema. Depois continuas a não dormir as horas devidas. A não descansar muito. E portanto, são dores, senhores. E no fundo é um desabafo. Porque raio vim eu para o trabalho a pensar nas meias da minha filha? E mais do que isso, a sofrer por sentir que ela, eventualmente, poderá vir a sofrer, mesmo que o mais provável seja que nem dê por isso e que mesmo que faça uma ferida no calcanhar ela não sinta a dor. E é por isso que ser mãe dói. É uma dorzinha constante. Às vezes intensifica-se, mas está sempre lá. Sempre. E nunca se vai apagar. E isto só acontece porque este amor é maior do que a dor. Muito maior.   

segunda-feira, 7 de maio de 2018

a vida do faz de conta

Ando numa fase em que nem sempre sei a quantas ando. Às vezes sou a Rosa, a educadora da Alice, outras vezes a Beta, que é a auxiliar. Também já fui a própria Alice e sei lá quantas pessoas que se têm cruzado na vida da minha filha. E ando assim meio esquizofrénica e às vezes questiono o que irá naquela cabeça. Numa das nossas “interpretações” senti que, de facto, ela não tem muita noção da realidade. E já fui pesquisar sobre isso. E é normal. Apesar de já ser muito crescidinha nas conversas e nas atitudes, está na fase da imaginação. E apesar de nem sempre ser fácil, eu gosto de entrar nesse mundo com ela. 

Numa manhã, como habitual, preparávamo-nos para sair de casa (a Alice quis ir de saia) e eis que começa um dos nossos momentos de esquizofrenia.




“Não tens frio?” Pergunto eu enquanto lhe calço as botas. 
“Não, avó.” Diz-me a Alice com a Mónica ao colo. “Porque eu sou a mãe da Mónica”. 
Entro na imaginação dela e digo: “Sabes que as avós são mesmo assim, sempre preocupadas se temos frio.” E continuo: “A minha neta (Mónica) é que deve estar com frio, porque está sem roupa.” 
“Não é neta, é a tua filha.” Responde a Alice enquanto lhe visto o casaco de ganga. 
“Tu és o pai.” 
“Ah! Ok. Então bora, vamos para o carro, meninas!” 
E lá saímos de casa. Entretanto digo à Alice que ainda está fresquinho e ela diz que não. Mas assim que se cruza com o vento faz uma cara que não desmente, mas como qualquer rapariga não desmancha e lá vai ela com o modelito. 
Enquanto a coloco na cadeira diz-me: 
“Tens de ajudar a mana a sentar”. 
“AH, pois, anda cá Mónica”. 
“Não”. Responde logo a Alice. “É a mana mais velha que vai à frente”. 
Lá fecho a porta à Alice. Coloco o cinto à mana mais velha e fecho a porta da frente. (ao que isto chegou!!!)
Começamos a nossa viagem e a Alice diz algo do género: 
“Não batas no vidro”. 
E eu, que não entendi muito bem, pergunto: 
“O quê, filha?” 
“Não, estou a falar com a Mana.” 
E lá me calei. Ri por dentro. E ela continua a conversar com a mana. E às vezes comigo. (Que confusão!)
“Olha lá o que é que a Mana está a fazer. Continua a bater no vidro. Fala com ela!” 
E, claro, lá começo eu a falar com a Mana. E, entretanto, a Alice pede-lhe para ter cuidado que pode partir o vidro. Lá aproveitamos um pouco a música dos Vampire Weekend que está a tocar na Radar e uns quilómetros à frente: 
“Olha pai, a mana partiu mesmo o vidro. E agora?” 
“Ó filha!” Digo eu, interpretando o meu papel, “estas a ver, a Alice já te tinha dito que isso poderia acontecer.” 
“Não pai, eu sou a mãe”. (a loucura total!)
“Ah! Achava que eras a mana mais velha.” 
“Não, essa é a Alice Afonso.” (uma amiga lá da creche) 
Foi nessa altura que tudo acalmou e a Alice passou a preocupar-se mais com o caminho e a dar-me as orientações para a esquerda e para a direta. Achava eu que tudo tinha terminado, mas assim que passamos o portão da creche diz-me ela com a Mónica ao colo: 
“Olha, ela diz que quer ir ao colo do Pai”. 
“Anda cá Mónica ao meu colinho”. E pergunto à Alice:
“A Mónica fica com a mãe ou vai com o pai?” 
“Ela vai com o pai”. 
E de repente tudo acabou. Mas às vezes não acaba tão facilmente. 
A Alice anda numa fase em que adora brincar ao faz de conta que somos outras pessoas. E eu alinho. O pai passa-se um pouco. No outro dia, ela era a mãe da sofia e antes de seguirmos viagem sentou-se no banco de trás do carro e foi difícil conseguir sentá-la na cadeirinha dela, porque as mães não precisam de cadeirinha. O pai não consegue passar muito tempo no mundo da imaginação. Não gosta nada. Mas eu entro na brincadeira. Lá faço os meus exercícios mentais e físicos. No outro dia ela era a mãe do Alexandre, um amigo lá da creche, e eu era o Kiko, o irmão mais novo que ainda tem meses. E, portanto, eu não podia falar. Podia chorar. E meia volta tinha uma chucha de plástico na boca que mal segurava e ela insistia que tinha de estar direita na minha boca. Nos intervalos enfiava-me um biberão de brincar, porque o Kiko tinha fome. Depois lá gatinhava. (e não consigo perceber como é que os bebés gatinham. Dói que dói andar de joelhos no chão). Mas no meio de tudo isto havia uma coisa muito boa, porque como mãe a Alice é muito carinhosa e eu ganhei muitos mimos. 
O pior é mesmo quando temos de ir para a cama, lavar os dentes, ou fazer alguma tarefa mais séria que tem mesmo de ser feita. Ela não desarma e eu tenho de fazer malabarismos para conseguir que ela faça as coisas da Alice, mas sendo outra pessoa qualquer. No dia seguinte à história do Kiko, estava eu na cozinha a preparar o nosso pequeno almoço quando oiço a minha querida filha: 
“Bom dia Kiko”. (errrr) 
Vou ter com ela a rir às gargalhadas e enquanto subo as escadas ela diz-me: 
“Tem de ser a gatinhar, porque o Kiko ainda não anda”. 
E é isto a minha vida, minha gente. 




sexta-feira, 9 de março de 2018

DOIS MINUTOS QUE QUERO PROLONGAR PARA SEMPRE


No dia da mulher apeteceu-me escrever sobre uma. Uma mulher desconhecida. Com quem me cruzei dois minutos. Num encontro forçado. Na estrada. Num dia de chuva. Ela conduzia um volvo. Vestia uma blusa branca. Daquelas felpudas. Com ar quentinho. Tinha óculos. Um cabelo meio encaracolado. Um ar desportivo. E talvez tenha a idade da minha mãe. Eu, saía da empresa a caminho de duas entrevistas. Em direção a uma casa familiar, mas uma morada desconhecida. E que procurava no e-mail. No iphone. Enquanto ia fazendo paragens nos semáforos. Cada vez que sentia uma oportunidade corria o dedo no ecrã à procura do mail que me desse a morada. Procurava. Não encontrava. Andava. Voltava a parar. Voltava a procurar. E voltava a não encontrar. Tudo tão repetitivamente. Tão de repente. Até que nos encontrámos. Eu e a mulher desconhecida. O meu destino estava cada vez mais próximo. Eu queria ter a certeza do lugar. E continuava a procurar. E já não estava parada no semáforo. Até que desvio o olhar do e-mail. E lá estava ela. À minha frente. Parada. Rapidamente o meu pé sai do acelerador. Passa para o travão. Mas não chega. O volvo estava cada vez mais perto. Até que há um efeito sonoro que esclarece tudo. As minhas coisas que iam no banco do lado vão parar ao chão. A minha cabeça entristece. Percebo o que fiz. O que não devia ter feito. Desligo o carro. Ali no meio da estrada. Da subida. Da curva. Ativo os quatro piscas. E lá vou eu travar o indesejado encontro. A senhora desportiva com a blusa branca abre a porta do volvo. E lá cruzámos olhares. Lá nos aproximámos. Ela está zangada. Diz-me que as pessoas andam muito rápido na cidade. Que devemos todos andar mais devagar na cidade. Eu percebo. Peço-lhe desculpa. E ela continua chateada e a chamar-me à atenção. Eu percebo. Eu sinto-me triste. Eu respondo. Sei que tem razão. Mas também sei que não serve de nada estarmos ali assim. No meio da estrada a conversar. Uma conversa que já não vai resolver nada. Mas ela não se cala e responde-me. Que tem de me dizer alguma coisa. Que tem de me chamar a atenção. E eu volto ao meu discurso. Peço-lhe novamente desculpa e digo-lhe que as palavras já não nos servem de nada. Encaminho-a para o segundo passo. Relembro-a que o que importante no momento é resolver. Mas ela continua. Continua a dizer-me que tem de me dizer alguma coisa. Que tenho de andar mais devagar na cidade. E quando eu achava que a conversa se ia prolongar. Que a fila de trânsito ia crescer atrás de nós. Que as minhas entrevistas não se iam realizar. A senhora desportiva da blusa branca diz-me que lhe bati no para-choques. Que não quer nada. Que apenas tem de me dizer que temos de ter mais cuidado na cidade. E volta-se. Entra no volvo. Eu fico sem perceber. Ainda olho para o meu carro. O estrondo tinha sido forte. Não vi o carro dela. Não faço ideia se ficou riscado. O meu ainda tem alguns riscos. Mas acho que são daqueles que saem se esfregarmos. Voltei para o meu carro. Respirei fundo. Liguei o carro. Pé na embraiagem. Primeira. Acelerador. E lá vamos nós. Devagar. Já não pego no telemóvel. Já só penso nela. Naquela mulher. Penso que de facto ela tem de servir para alguma coisa. Eu tenho de tirar partido dela. Não foi à toa que nos cruzámos. Eu ando rápido na cidade. É verdade. Eu ando a maior parte do tempo contra o relógio. E ultimamente consulto o telemóvel no trânsito. Envio sms. E-mails. Vejo redes sociais. E naquele dia procurava uma morada. E a verdade é que me concentrei. Confiei na minha memória fotográfica. Fui observando. Fui me lembrando. E cheguei à morada. Sem precisar do e-mail que escrevia o nome da rua e o número da porta. Todos os dias me tenho lembrado da senhora desportiva. A sair do carro. Triste por não cumprirmos. Não a conheço para além disso. Não sei se costuma cometer erros na estrada. Nem sei se naquele dia não cometeu algum. Não quero saber se teria o Seguro em dia. Só quero aprender. E por isso no dia da mulher apeteceu-me escrever sobre este ensinamento. Sobre esta desconhecida que me chamou à atenção. Tal como fazem as mães. Que me fez parar. Desligar do acelerador. Mas muito mais do que isso. Ela tem de me fazer concentrar na estrada. O tempo realmente mudou. Parece que dura muito menos. E somos nós que lhe tiramos horas e minutos. E somos nós que lhe queremos acrescentar horas e minutos. E queremos que renda. Queremos adiantar. Aproveitar todo o tempo do mundo. E na estrada vamos a trabalhar. A tratar de assuntos. Ou a tratar de nada. Mas já não nos chega ir com as mãos no volante. As costas no banco. Com os olhos na estrada e os ouvidos sintonizados na rádio. Já não nos chega. Mas tem de chegar. E temos de mudar. E eu vou-me esforçar. Quero prolongar estes dois minutos para sempre.   

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Trinta e seis anos.


Trinta e seis anos. Escrevo por extenso para ver se a idade me faz mais sentido. Mas não faz. Não sinto esses anos. Às vezes acho que deveria ser menos miúda. Às vezes gostava que se topasse a léguas que sou mãe. Que sou casada. Que ando nesta vida há trinta e seis anos. Às vezes gostava de não ter este ar de recém-licenciada. Acabadinha de estagiar. Há uns dias, fiz várias entrevistas numa consultora. Quase todos pareciam mais velhos. Mais sérios. Mais adultos. E afinal, no momento da apresentação, essas pessoas mais sérias não chegam aos trinta e seis. E eu ali, na frente delas, a parecer a miúda. Mas a culpa é minha. Sou eu que não me levo a sério. Ou melhor, sou eu que não levo a idade a sério. A culpa é desta miúda tímida que eu ainda vou encontrando cá dentro. Mudei muito. Falo mais. Ainda observo mais. Mas a miúda tímida ficou sempre comigo. E claro que não me vai largar. Ou eu a ela. E sei que ela é visível. Está na minha cara. No meu sorriso. Na minha atitude. Está na primeira impressão. Nos primeiros contactos. É ela que me deixa um ar tão despreocupado com o que possam ou não pensar. É ela que às vezes me rouba as palavras. Às vezes também acho que não me esforço. Podia tentar. Podia optar pelo salto alto. Mas deixo-me ficar baixinha. Deixo-me ficar sem idade. Porque é isso que sinto. Sinto que não sei a quantas ando. Continuo a gostar de brincar. Continuo interessada em aprender. Continuo a sonhar. Sonho muito. Imagino. Viajo. Paralelamente vou vivendo uma vida imaginária. Às vezes sinto-me uma espécie de Peter Pan. Nalguns aspetos parece que continuo a não querer crescer. Mas são trinta e seis. Já deveria estar preocupada com os quarenta. Já deveria saber tirar as nódoas da roupa da minha filha. Embora já tire os borbotos. Há sensivelmente um mês que ela anda sem um botão no bibe. É daqueles que não faz muita falta. Mas outra mãe já o teria posto. Já se teria esforçado para encontrar um botão igual. E se não o encontrasse já teria mudado todos. Eu já o encontrei na bolsa pequenina da mochila dela. Na semana passada. Mas ainda não o cosi. Não sei como ela me vê. A minha filha. Será que também não vê a minha idade? Ou será a única pessoa que a vê? Não sei. Nem quero saber. Sei que vamos continuar a somar aniversários juntas. Contentes por celebrar. Mesmo que o menos importante sejam as velas. Os números. E as primeiras impressões.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O dia do pijama

Hoje é dia do pijama. Sei disso desde que a Alice foi para a creche. E hoje lá foi ela de pijama. Um pijama que comprámos há uns tempos no Aldi. De algodão orgânico. Assim bonitinho. Confortável. Barato. São assim os nossos pijamas. Olho sempre para a composição e para o preço. E lá foi ela. Mas podia não ter ido com este pijama. É que a nossa casa é muito quentinha. E os nossos pijamas são fresquinhos. E é Inverno. Por isso pensei em comprar um novo. Para o dia do pijama. Mais quente. Para que não passasse frio. E giro. E lá fui eu. Fomos nós, que a Alice também foi. Corri algumas lojas de olho nos pijamas. Vi muitos. Vi preços altos. Vi pijamas cheios de bonecos da moda. Nada especiais. E muitos pareciam autênticos fatos de treino. Parei na loja que mais escolha tinha. Andei e andei. "Escolho este ou aquele? Alice, gostas deste ou daquele? Mas é polar? Ela não vai voltar a usar. Talvez quando for dormir a casa da avó. Mas isso é raro. Talvez quando formos dormir a casa da prima Susana ou da Annie. Mas as casas também são aquecidas. E os preços? Noutra altura eu não daria vinte euros por um pijama"... E fui continuando. Com dúvidas. Com pijamas na mão. Com pijamas pendurados no carinho da Alice. Com fotografias para o Vitor porque precisava de opinião. E vi pijamas. E vi pessoas. E mais pessoas. A escolher e a comprar. Compravam pijamas. Pantufas. Meias. E robes. Vi muitas pessoas a comprar. Observei. E felizmente não comprei. Não comprei. Porque me lembrei que neste dia o que menos interessa é o pijama. Não interesse se é giro ou feio. Se está quente ou frio. Interessa o propósito. Interessa que é dia da Convenção Internacional dos Direitos da Criança. Que neste dia as nossas escolas, a nível nacional, alertam para o facto de todas as crianças terem direito a uma família, apesar de muitas estarem institucionalizadas. Interessa que estamos a ajudar. A contribuir. Estamos a construir as nossas crianças para a solidariedade. É isso que interessa. E ali naquela loja, vi pessoas a fugir. A fugir ao propósito deste dia. A distrairem-se mais uma vez. A não pensarem. E vi lojas a fazerem campanhas. A tirar partido do dia do pijama. Até percebo. É o negócio. Mas se calhar desconhecem o propósito. Se calhar não sabem que, neste dia, as nossas crianças levam para a escola uma casinha de papel com moedas ou notas que foram juntando para ajudar a instituição "Mundos de Vida". Se calhar não sabem que o pijama é uma forma de sinalizar o dia. É o símbolo do conforto e da família. Não se trata de mais um Halloween. Não. Até podem querer vender pijamas, mas pelo menos coloquem algumas moedas numa caixinha de papel. E entreguem-na à instituição. Tal como as nossas crianças hoje vão fazer. Todas vão entregar a sua caixinha. As suas moedas. Que colocaram tão atentamente. Que pediram aos tios e aos avós. É isso que interessa. E hoje facilmente nos desfocamos daquilo que realmente importa. Acho que todos temos de ir fazendo este exercício. De olhar. Observar. Refletir. E parar a tempo, se for o caso. Da minha parte, obrigada dia do pijama.   

sábado, 14 de outubro de 2017

PARABÉNS


Já lá vão quase 18 anos. Estamos prestes a atingir a maioridade. Começámos tão timidamente. As borboletas regressam quando penso. Ainda me lembro do teu olhar quando saímos das aulas de latim. Das conversas com a Canocha nos intervalos da João de Barros. Das cartas que recebia em envelopes azuis para teres a certeza que chegavam antes de ti. Das provas de amor que o Ricardo me entregava. Eram poemas. Eram palavras. Músicas. Eram as sextas-feiras em que aparecias lá na escola. Vinhas a correr da Ota. E eu saía a correr das aulas. Sabíamos que éramos um para outro. Feitos um para o outro. Destinados. Rapidamente trocámos de nome. Rapidamente passámos a ser o “amo-te muito” um do outro. Bem cedo sentimos que era mais que muito. Mais que tudo. Mesmo que timidamente. Fomos crescendo. Temos crescido juntos. Já nos contagiámos. Já somos um bocadinho o outro. Mas sem nunca deixarmos de ser nós. Já me deste muitas provas de amor. Muitas. E a maior de todas é que nunca desistes de mim. Depois de todos estes anos. Fazes questão de me ir conquistando. E eu acho sempre muito. Acho sempre que és muito. Que tenho sorte. És de facto especial. Acho que tens noção, mas não imaginas quanto. E o quanto isso é mágico. Sabes que por vezes deverias ser menos. Olhar mais por ti e menos para mim. Mas não consegues. Não consegues dizer-me não. Estou mal-habituada. Como sempre fui. Rodeada de amor. Não consigo viver sem ser de coração cheio. E tu... consegues encher-me sempre este meu coração. E hoje estamos ainda mais apaixonados. Há um terceiro amor. Que nos preenche mais, mas que nos desafia mais. É inevitavelmente uma distração ao nosso namoro. Estamos apaixonados por ela. A nossa Alice. Ao longo destes anos nunca quisemos muito ser pais. Mas decidimos sê-lo precisamente pela nossa história. Por esta cumplicidade. Este destino que somos um do outro. Funcionamos. E houve um dia em que decidimos que seria um desperdício não darmos outra vida a este amor. Sentimos que teríamos de dar esta felicidade a alguém. É presunçoso. Mas é a verdade. E ainda bem que assim foi. Estamos a viver um novo ciclo. Mais cansados e menos dedicados um ao outro. Estamos num novo momento de conquista. E aos poucos vamo-nos reconquistando. Sei que é para a vida toda. E em bom. Mas às vezes também tenho medo. Embora não consiga imaginar de outra forma. Às vezes tenho medo que desistas de mim. Não sei viver sem ti. Atingimos a maioridade juntos. E na fase menos madura da nossa vida. Acho que estamos entrelaçados. E vamos para sempre estar. Hoje comemoras 36 anos. Caramba, já passámos metade da nossa vida juntos. Que loucura! Que imensidão. Que utopia. Parece que somos de outro tempo. Mas não. Somos o destino um do outro. E, tu, és um coração muito especial. És poesia. Moves-te, silenciosamente, pela dedicação aos outros. E fazes-nos mover. A mim e à nossa filha. Tens amor e humor para dar. Tens no espirito a missão de me preencher. De me fazer sorrir. Eu só consigo retribuir. Agradecer. E viver serenamente junto de ti. Obrigada.