Somos feitas de íman

Tenho um post-it cor de rosa colado na cabeceira da cama. Tem escrito ALICE. As letras estão desalinhadas, mas estão corretas. Às vezes ela troca a ordem do “I” e do “C”. Não foi o caso. E depois do nome ela desenhou um coração, “porque tenho amor por ti”. E colou-o naquele preciso lugar “para nunca esqueceres que gosto de ti”. Também colou um na entrada da porta do meu quarto. Esse sem coração. E com as letras trocadas. Diz que é para os ladrões não entrarem ali. E assim anda a minha casa colorida de papelinhos rosa com o nome dela. E eu ando colorida de amor. Por ela. E ela por mim. Mas não estamos apaixonadas. Quando lhe fiz a pergunta nem precisei que respondesse porque consegui ler na expressão: “Não! Eu gosto é muito de ti. Tu e o pai é que são apaixonados”. Mas a verdade é que somos feitas de íman. Os nossos corpos atraem-se facilmente. Não há dia sem abraços. Sem colo. Sem beijos. Sem palavras de amor. “Gosto de ti do tamanho do cabelo da Rapunzel”. “Amo-te até ao país do Youtube”. “Gosto de ti ao infinito e mais além”. E nestas férias as palavras dela foram mesmo mais além. E escrevo-as porque tenho medo que a minha memória as apague. Houve ali uma semana intensa. Habitualmente à hora de adormecer. O nosso momento a duas. A história. O agradecimento pelo dia. A quadra do anjo da guarda. E as nossas conversas de amor. E naquelas noites as conversas foram maiores. “Sabes mãe, gosto tanto de ti que acho que nunca vou ter um marido”. “Sabes mãe, vou sempre gostar de ti, mesmo quando tiveres uma neta, que é a minha filha”. Houve também um dia em que foi para a praia com os avós e já à beira mar pediu as braçadeiras. “Sabes avó, se for para longe nunca mais vejo a minha mãe”. Hoje a sair do banho, enrolada na toalha, disse-me pensativa “eu nem sei dizer quanto gosto de ti”. E é isto. Eu chamo-lhes declarações de amor. Mas ela esta claramente numa fase em que tem medo de me perder. Em que não entende a vida sem a mãe por perto. Em que sou o grande amor. Sabes filha, quem tem medo aqui sou eu. Porque um dia o nosso íman será mais fraco. Haverá menos colo. E não será por não poder contigo. Porque é assim. Porque descobrirás outras formas de amor. Mas eu serei sempre tua e vou amar-te para lá do youtube e muito para além do infinito. E nunca deixes de colorir a vida dos outros. O Amor não pode ser apenas sentido. São as demonstrações que o fazem crescer.







Comentários

  1. Maravilhoso... Chego a ter um nó na garganta... Porque eu e o Dinis estamos a vivência, precisamente esse sentimento, de pertença, de amor incondicional e difícil de explicar. Obrigada pela partilha ❤️

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  2. *a vivenciar.

    P. S- mãe do Dinis Francisco

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    1. sou tão distraída deste sitio que não posso chamar de blogue que nem vejo os comentários. um beijinho muito grande. obrigada eu pelas palavras deixadas aqui, que mesmo que tarde são sempre lidas e agradecidas. beijinhos

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